{"id":1050,"date":"2012-08-12T00:59:41","date_gmt":"2012-08-12T02:59:41","guid":{"rendered":"http:\/\/cmca.srv.br\/blogmax\/?p=1050"},"modified":"2012-10-12T23:49:35","modified_gmt":"2012-10-13T01:49:35","slug":"o-processo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/max.pro.br\/?p=1050","title":{"rendered":"O processo"},"content":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s ser preso e responder a um processo, um homem passa a investigar para descobrir o motivo de estar sendo investigado. Dirigido por Orson Welles, e indicado por ele mesmo com seu melhor filme, \u201cO Processo\u201d(Le Proc\u00e8s, Paris, 1962), baseado em livro de Franz Kafka.<\/p>\n<p>A vers\u00e3o filmada de \u201cO Processo\u201d procurou ser fiel \u00e0 obra de Kafka \u2013 o argumento \u00e9, sem d\u00favida nenhuma, kafkiano. Algumas mudan\u00e7as s\u00e3o fruto da interpreta\u00e7\u00e3o pessoal do diretor e da adapta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de 1914 aos anos sessenta; inclui-se a op\u00e7\u00e3o do diretor por n\u00e3o utilizar o final do livro no filme.<\/p>\n<p>No livro, Joseph K., personagem central, conscientiza-se de que \u00e9 in\u00fatil opor resist\u00eancia. Sofre solitariamente a injusti\u00e7a. \u00c9 morto a facadas, \u201c- Como um cachorro!\u201d, diz ele.<\/p>\n<p>Pensando nos regimes totalit\u00e1rios e em suas incont\u00e1veis v\u00edtimas, Orson Welles ampliou o significado da morte de K. O acusado n\u00e3o se rende. Os algozes, co-respons\u00e1veis, n\u00e3o o matam com as pr\u00f3prias m\u00e3os. Joseph K. espera rindo, com desd\u00e9m. Uma bomba explode. Tudo muito impessoal.<\/p>\n<p>Foi cortada uma cena de 10 minutos que tornaria mais f\u00e1cil compreender o final. K. perguntava a um enorme computador qual seria o seu destino. Veio como resposta que K. n\u00e3o ag\u00fcentaria, cometeria suic\u00eddio. Esta cena, segundo Orson Welles, seria uma das principais, mas foi cortada porque era cheia de humor negro e n\u00e3o acompanhava o esp\u00edrito do filme. Mas seu intento era mostrar que K. , at\u00e9 o fim, foi livre para recusar o pr\u00f3prio destino.<\/p>\n<p>O filme conta a hist\u00f3ria de Joseph K. (Anthony Perkins), um homem reservado, que vive na pens\u00e3o da senhora Grubach (Madeleine Robinson) e se d\u00e1 bem com todos os demais moradores do local. Um dia ele \u00e9 acordado por um inspetor de pol\u00edcia (Arnoldo Fo\u00e0), que lhe informa que est\u00e1 preso, mas n\u00e3o o leva sob cust\u00f3dia. Durante o processo Joseph segue com suas atividades normais, tendo apenas que ficar \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o das autoridades a qualquer hora do dia. Incomodado por n\u00e3o saber do que est\u00e1 sendo acusado, ele decide investigar em busca de uma resposta.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 aflitivo: a Gare d\u2019Orsay, em Paris &#8211; de onde v\u00e1rias pessoas eram enviadas aos campos de concentra\u00e7\u00e3o nazistas e onde, ap\u00f3s desativa\u00e7\u00e3o, em 1939, foram confinados, sucessivamente, prisioneiros da 2\u00aa grande guerra e argelinos (s\u00f3 transformada no maravilhoso Mus\u00e9e d\u2019Orsay em 1986) -, entrou por acaso no filme e garantiu, filmada em semi-escurid\u00e3o, uma atmosfera soturna e penosa. O escrit\u00f3rio do advogado, as salas do tribunal e os in\u00fameros corredores percorridos por Joseph K. foram filmados l\u00e1 porque os sets de filmagem na Iugosl\u00e1via n\u00e3o haviam ficado prontos. A improvisa\u00e7\u00e3o, no entanto, foi providencial.<\/p>\n<p>O filme n\u00e3o p\u00f4de ser rodado na Rep\u00fablica Tcheca, onde Kafka era ainda um escritor banido. Diversas loca\u00e7\u00f5es foram usadas em cenas cont\u00ednuas, mixadas, de forma a criar o ambiente que Kafka descreveu, tais como a escadaria do Palazzo di Giustizia, em Roma, uma f\u00e1brica de Mil\u00e3o e as ruas de Zagreb, muito parecidas com as de Praga.<\/p>\n<p>A atualidade do tema impressiona. O filme tem in\u00edcio com trecho do livro encontrado nos cap\u00edtulos finais. Na cena do livro, ap\u00f3s buscar in\u00fameros aconselhamentos para seu processo, Joseph K. confessa ao Capel\u00e3o ser este a \u00fanica pessoa em que pode confiar. O Capel\u00e3o o adverte: \u201c &#8211; N\u00e3o se engane!\u201d. E, antes de revelar ser ele o Capel\u00e3o do pres\u00eddio, narra a Joseph K. par\u00e1bola que simboliza os meandros da Lei. A hist\u00f3ria, contada pela voz de Orson Welles, principia \u201cO Processo\u201d:<\/p>\n<p>\u201cDiante da Lei, fica um guarda. Um homem, vindo do interior, pede para entrar. Mas o guarda n\u00e3o admite. \u2018- Pode ele entrar mais tarde?\u2019 \u2018-\u00c9 poss\u00edvel\u2019, diz o guarda. O homem tenta olhar para dentro. Aprendeu que a Lei deveria ser acess\u00edvel a todos. \u2018-N\u00e3o tente entrar sem a minha permiss\u00e3o! Eu sou poderoso! E sou apenas o mais subalterno de todos os guardas! A cada sala, a cada porta, h\u00e1 um guarda mais poderoso que o anterior\u2019. Com a permiss\u00e3o do guarda ele senta ao lado da porta e espera. Por anos ele espera. Ele vende tudo o que tem pensando subornar o guarda. Este sempre aceita o que o homem lhe d\u00e1 para que ele n\u00e3o sinta que n\u00e3o tentou. Fazendo vig\u00edlia por anos, o homem conhece at\u00e9 as pulgas da gola do guarda. Ficando gag\u00e1 com a idade, pede \u00e0s pulgas que conven\u00e7am o guarda a permitir a entrada. Sua vis\u00e3o \u00e9 curta, mas ele percebe um brilho infinito ao redor da porta da lei. E agora, antes de morrer, toda sua experi\u00eancia se reduz a uma pergunta que ele nunca fez. Ele chama o guarda. E o guarda responde: \u2018-Voc\u00ea n\u00e3o se cansa, o que quer agora?\u2019 \u2018- Todo homem luta pela Lei\u2019. Ent\u00e3o, por que nesses anos todos ningu\u00e9m pediu a prote\u00e7\u00e3o da Lei?\u2019 Sua audi\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa, e o guarda grita em seu ouvido: \u2018-S\u00f3 voc\u00ea poderia entrar. Ningu\u00e9m mais. Essa porta foi feita s\u00f3 para voc\u00ea. E, agora, eu vou fech\u00e1-la\u2019.<\/p>\n<p>Culpa e injusti\u00e7a s\u00e3o enquadrados, de forma concisa, fora do plano individual, como um problema difuso, coletivo. Kafka polarizara essa problem\u00e1tica como uma quest\u00e3o entre indiv\u00edduo e autoridade. As duas vers\u00f5es se complementam nos tempos de hoje e \u00e9 por isso que irradiam genialidade.<\/p>\n<p>V\u00e1rias foram as leituras que se fizeram das duas obras, muitas completamente alheias ao mundo do direito. No entanto, \u00e9 na \u00e1rea jur\u00eddica que o filme encontra lugar para encorajar reflex\u00f5es da maior import\u00e2ncia. Espalhadas no mundo, muitas universidades usam o filme como material essencial aos debates em aula. Workshops s\u00e3o promovidas sobre \u201cO Processo\u201d. Examinam-se temas como a pena de morte, a burocratiza\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, os caminhos do direito administrativo.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 perto do estudo do processo que livro e filme alcan\u00e7am import\u00e2ncia vital, muito especialmente para o processo penal. Ambos incomodam ao revelar, com bastante lucidez, que as institui\u00e7\u00f5es, despersonalizadas, permanecem no tempo e que a vida do homem tem dura\u00e7\u00e3o limitada no tempo e no espa\u00e7o. A longevidade, por si s\u00f3, j\u00e1 \u00e9 uma vantagem. De nada adianta a lei pairar, eterna, sobre todos, se n\u00e3o se considerar que a vida do homem simplesmente acaba, mesmo que ningu\u00e9m se ocupe de mat\u00e1-lo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ap\u00f3s ser preso e responder a um processo, um homem passa a investigar para descobrir o motivo de estar sendo &hellip; <span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/max.pro.br\/?p=1050\">Continue Reading<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-1050","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direito"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1050","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1050"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1050\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1263,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1050\/revisions\/1263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1050"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1050"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/max.pro.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1050"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}