{"id":601,"date":"2012-07-01T04:21:55","date_gmt":"2012-07-01T06:21:55","guid":{"rendered":"http:\/\/cmca.srv.br\/blogmax\/?p=601"},"modified":"2013-04-15T19:56:11","modified_gmt":"2013-04-15T21:56:11","slug":"uma-tese-e-uma-tese","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/max.pro.br\/?p=601","title":{"rendered":"Uma tese \u00e9 uma tese"},"content":{"rendered":"<p><strong>Autor<\/strong>: M\u00e1rio Prata<\/p>\n<p><em>Publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, Caderno 2, 07\/10\/1998. <\/em><\/p>\n<p>&#8220;Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? \u00c9 dessa tese que eu estou falando. Voc\u00ea deve conhecer pelo menos uma pessoa que j\u00e1 defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese \u00e9 defendida. Ela \u00e9 feita para ser atacada pela banca, que s\u00e3o aquelas pessoas que gostam de botar banca.<\/p>\n<p>As teses s\u00e3o todas maravilhosas. Em tese. Voc\u00ea acompanha uma pessoa meses, anos, s\u00e9culos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que n\u00e3o acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem at\u00e9 teses p\u00f3s-morte.<\/p>\n<p>O mais interessante na tese \u00e9 que, quando nos contam, s\u00e3o maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. A\u00ed ele publica, te d\u00e1 uma c\u00f3pia e \u00e9 sempre \u2013 sempre \u2013 uma decep\u00e7\u00e3o. Em tese. Imposs\u00edvel ler uma tese de cabo a rabo. S\u00e3o chat\u00edssimas. \u00c9 uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E n\u00f3s?<\/p>\n<p>Sim, porque os assuntos, j\u00e1 disse, s\u00e3o maravilhosos, cativantes, as pessoas s\u00e3o inteligent\u00edssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodap\u00e9 da hist\u00f3ria. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud n\u00e3o parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.<\/p>\n<p>Escrever uma tese \u00e9 quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo p\u00e1ra, o dinheiro entra apertado, os filhos s\u00e3o abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. N\u00e3o por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.<\/p>\n<p>E, depois de terminada a tese, tem a revis\u00e3o da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publica\u00e7\u00e3o. E, \u00e9 claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. S\u00e3o os profissionais, em tese. O pior \u00e9 quando convidam a gente para assistir \u00e0 defesa. Meu Deus, que sono. N\u00e3o em tese, na pr\u00e1tica mesmo.<\/p>\n<p>Orientados e orientandos (que nomes atuais!) s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que toda tese tem de ser \u2013 tem de ser! \u2013 daquele jeito. \u00c9 pra n\u00e3o entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne \u00e9 assim, que em Coimbra tamb\u00e9m. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na pr\u00e1tica) s\u00e3o 700 anos de muita tese e pouca pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, al\u00e9m da tese, o elemento teria de fazer tamb\u00e9m uma tes\u00e3o (tese grande). Ou seja, uma vers\u00e3o para n\u00f3s, pobres te\u00f3ricos ignorantes que n\u00e3o votamos no Apud Neto.<\/p>\n<p>Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra qu\u00ea? Pra virar mestre, doutor? E da\u00ed? Se ele estudou tanto aquilo, acho imposs\u00edvel que ele n\u00e3o queira que a gente saiba a que conclus\u00f5es chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando n\u00e3o \u00e9 tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?<\/p>\n<p>Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. V\u00e3o l\u00e1 nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente n\u00e3o fica sabendo de nada. S\u00f3 aqueles sisudos da banca. E o cara d\u00e1 logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exalta\u00e7\u00e3o, que enc\u00f4mio \u00e9 isso?<\/p>\n<p>E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses s\u00e3o uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separa\u00e7\u00f5es, pens\u00e3o para os filhos que a mulher levou embora. \u00c9, defender uma tese \u00e9 mesmo um voto de pobreza, j\u00e1 diria S\u00e3o Francisco de Assis. Em tese.<\/p>\n<p>Tenho um casal de amigos que h\u00e1 uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no caf\u00e9 da manh\u00e3, amea\u00e7ou:<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o vou mais estudar! N\u00e3o vou mais na escola.<\/p>\n<p>Os dois pararam \u2013 momentaneamente \u2013 de pensar nas teses.<\/p>\n<p>&#8211; O qu\u00ea? Pirou?<\/p>\n<p>&#8211; Quero estudar mais, n\u00e3o. Olha voc\u00eas dois. N\u00e3o fazem mais nada na vida. \u00c9 s\u00f3 a tese, a tese, a tese. N\u00e3o pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente n\u00e3o pode ir para a praia por causa da tese. Tudo \u00e9 pra quando acabar a tese. At\u00e9 trocar o pano do sof\u00e1. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, n\u00e3o. N\u00e3o me deixam nem mexer mais no computador. Voc\u00eas acham mesmo que eu vou deletar a tese de voc\u00eas?<\/p>\n<p>Pensando bem, at\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 uma m\u00e1 id\u00e9ia!<\/p>\n<p>Quando \u00e9 que algu\u00e9m vai ter a pr\u00e1tica id\u00e9ia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodap\u00e9s da hist\u00f3ria?<\/p>\n<p>Acho que seria uma tes\u00e3o.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor: M\u00e1rio Prata Publicado no jornal O Estado de S\u00e3o Paulo, Caderno 2, 07\/10\/1998. &#8220;Sabe tese, de faculdade? 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